O tamanho do problema
Antes de propor lei, é preciso saber quantas pessoas estão do outro lado. Estes são os dados públicos mais recentes sobre feminicídio e violência sexual contra crianças e pessoas vulneráveis no Brasil e em São Paulo, organizados nos quatro eixos da campanha: prevenir, proteger, responsabilizar e incluir. Cada número está com a fonte, o ano e o recorte, Brasil ou São Paulo, escritos ao lado dele.
1.571
mulheres mortas por feminicídio no Brasil
em 2025 · alta de 4,0% sobre 2024
84.388
vítimas de estupro e estupro de vulnerável
em 2025 · 39,5 por 100 mil habitantes
61.076
vítimas de violência sexual com 17 anos ou menos
em 2025 · 121,3 por 100 mil nessa idade
Três cuidados para não ler errado
Dado de segurança pública é fácil de citar torto. Estes três cuidados evitam promessa frágil e mantêm a conversa em pé quando alguém contesta.
"Pedofilia" não é categoria de boletim
- É um termo clínico e social, não existe como classificação de ocorrência policial.
- Para medir o crime, o que se usa é estupro de vulnerável, violência sexual contra criança e os crimes do Estatuto da Criança e do Adolescente.
O que está registrado não é tudo o que aconteceu
- Os números mostram vítimas e ocorrências que chegaram à polícia.
- Violência sexual e violência doméstica têm forte subnotificação, e ela é maior ainda quando quem agride é da família.
Número absoluto e taxa contam histórias diferentes
- São Paulo lidera em volume porque é o estado com mais gente.
- Estados pequenos podem ter risco proporcional muito mais alto. Use o volume para dimensionar estrutura e a taxa para comparar risco.
Prevenir
O tamanho do problema, e o que vem antes do crime que mata.
São Paulo concentra o maior número de mulheres mortas
Os dez estados com mais vítimas de feminicídio em 2025. Cerca de 17% das mulheres mortas por feminicídio no país foram mortas em São Paulo.
Vítimas de feminicídio em 2025, dez maiores
- SP270
- MG177
- RJ105
- BA102
- PE88
- PR87
- RS80
- PA65
- GO59
- MT53
O que esse volume exige
Volume grande não pede discurso maior, pede estrutura maior: delegacia da mulher aberta 24 horas, medida protetiva de fato fiscalizada, botão de emergência que chama socorro e rede de acolhimento funcionando na capital e no interior ao mesmo tempo.
Quando se olha a taxa por 100 mil mulheres, e não o total, o mapa muda. As maiores taxas de feminicídio do país em 2025 estão no Acre, em Rondônia, no Mato Grosso, no Mato Grosso do Sul e no Tocantins. São Paulo tem taxa menor que a desses estados e mesmo assim o maior volume do país.
É por isso que a leitura não pode parar no ranking absoluto. Política pública precisa combinar escala, território e vulnerabilidade.
Fonte: Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, dados de 2025, a partir de registros informados pelas secretarias estaduais de segurança. O ranking de taxa está escrito por extenso porque o material de origem traz a ordem dos estados sem o valor exato de cada um.
Para cada mulher morta, centenas de sinais registrados
O Anuário conta quantos registros de cada tipo o país fez para cada um dos 1.571 feminicídios de 2025. A conta mostra que o crime que mata é o fim de uma fila, e que essa fila passou por um balcão antes.
Registros no Brasil para cada 1 feminicídio, 2025
- Ameaça501,9
- Agressão física182,2
- Medida protetiva descumprida84,0
- Perseguição (stalking)78,8
- Violência psicológica38,7
- Tentativa de feminicídio2,7
- Feminicídio1
O que isso quer dizer
Cada linha acima é um momento em que o Estado soube de alguma coisa. Foram 501,9 ameaças registradas para cada morte, e 84 medidas protetivas descumpridas. Nenhum desses números é de um caso que ninguém viu.
É por isso que prevenir não é campanha educativa e nada mais: é tratar ameaça, perseguição e medida descumprida como sinal de risco, com resposta imediata, e não como ocorrência menor que fica na fila.
Fonte: Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, infográfico "Segurança em números 2026", dados de 2025. A proporção é a do próprio material de origem, que divide o total de registros de cada tipo pelo número de feminicídios do ano.
14.443 vítimas em São Paulo em um ano
O indicador reúne estupro e estupro de vulnerável consumados que viraram boletim de ocorrência em 2025. São Paulo sozinho responde por mais que o dobro do segundo colocado.
Vítimas de estupro e estupro de vulnerável em 2025, dez maiores
- SP14.443
- PR6.946
- RJ5.867
- MG5.731
- PA5.373
- BA5.128
- RS5.082
- SC4.627
- GO3.929
- PE2.650
O que 14 mil vítimas exigem de estrutura
Cada registro desses precisa de alguém para atender sem revitimizar, de perícia disponível a tempo, de investigação que ande e de prova digital preservada antes de sumir. Nada disso acontece por si.
A conta da política pública aqui não é só "punir depois". É impedir a repetição, fazer com que registrar seja seguro o suficiente para acontecer, e guardar a evidência enquanto ela ainda existe.
Fonte: Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, dados de 2025, a partir de registros informados pelas secretarias estaduais de segurança.
Estupro de vulnerável é a maior parte de tudo
É a categoria legal que cobre menores de 14 anos e pessoas que não podem consentir. Foram 64.990 vítimas no Brasil em 2025, ou seja, mais de três em cada quatro registros de violência sexual do país.
Vítimas de estupro de vulnerável em 2025, dez maiores
- SP11.044
- PR5.418
- PA4.595
- MG4.312
- RJ4.073
- RS4.047
- BA3.991
- SC3.229
- GO3.181
- PE2.002
- Roraima 102,3
- Acre 77,7
- Rondônia 75,9
- Amapá 68,3
- Mato Grosso do Sul 65,8
- Tocantins 55,4
São Paulo tem taxa proporcional bem menor que a de Roraima, Acre ou Rondônia. O que São Paulo tem é escala: 11 mil crianças e pessoas vulneráveis em um ano, no mesmo estado.
Os dois problemas são reais e pedem respostas diferentes. Um pede foco territorial, o outro pede capacidade instalada.
Fonte: Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, dados de 2025, a partir de registros informados pelas secretarias estaduais de segurança.
61 mil crianças e adolescentes em um ano
Esta é a tabela que chega mais perto do que as pessoas chamam de abuso sexual infantil: vítimas de 0 a 17 anos, separadas por idade e não por tipo penal.
Vítimas de 0 a 17 anos em 2025, dez maiores
- SP8.108
- PR5.431
- PA4.418
- MG4.320
- BA4.262
- RS4.024
- RJ3.818
- SC3.377
- GO2.696
- PE1.951
- Roraima 298,7
- Mato Grosso do Sul 246,4
- Amapá 219,4
- Rondônia 202,0
- Acre 199,7
- Paraná 197,6
O Paraná aparece nos dois lados: é o segundo em volume e está entre os seis de maior risco proporcional. É a combinação mais difícil de enfrentar, porque exige as duas coisas ao mesmo tempo.
Fonte: Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, dados de 2025, a partir de registros informados pelas secretarias estaduais de segurança.
Proteger
Para quem já está em risco: onde a proteção precisa chegar.
A maioria foi morta dentro da própria casa
Proteger não é vigiar rua. Em quase dois terços dos feminicídios de 2025, o lugar da morte foi a residência da vítima, e a violência doméstica que chega à polícia é contada em centenas de milhares de registros por ano.
O que isso exige
Se o lugar é a casa, a proteção tem de funcionar dentro dela: medida protetiva fiscalizada de verdade, alerta que chega a quem pode socorrer, e rede aberta perto de onde a mulher mora, e não só no centro da capital.
Fonte: Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, infográfico "Segurança em números 2026", dados de 2025.
Na maior parte das vezes, é dentro de casa e é alguém conhecido
Este é o dado que mais muda o desenho de uma política de proteção. Vigiar a rua não alcança o lugar onde a maior parte disso acontece.
Estupro de vulnerável, onde ocorreu
- Residência 64,9%
- Outros locais 35,1%
Vítimas menores de 14 anos, quem era o autor
- Familiar 36,9%
- Outro conhecido 59,2%
- Desconhecido 3,9%
Em 96 de cada 100 casos, a criança conhecia quem fez
Somando familiar e outro conhecido, o desconhecido responde por menos de 4%. Isso derruba a imagem do estranho na esquina, que é a que a maioria das campanhas ainda usa.
Três consequências práticas:
- A campanha tem que falar com escola, posto de saúde, assistência social e com a própria família, não só com a polícia.
- O caminho do registro precisa preservar a prova e acionar a rede de proteção, porque a criança não vai à delegacia sozinha.
- Quando a vítima depende financeira ou afetivamente de quem agride, a subnotificação é maior. O número real é mais alto que o registrado.
Fonte: Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, dados de 2025. As duas proporções vêm de recortes diferentes do mesmo anuário: a primeira é sobre local de ocorrência de estupro de vulnerável, a segunda é sobre vínculo entre vítima menor de 14 anos e autor.
Responsabilizar
Quem comete carrega a conta, e o Estado responde ao que já sabia.
Em 8 de cada 10 casos, era o parceiro ou o ex
Feminicídio não é crime de desconhecido. Entre os casos de 2025 com autoria identificada, a esmagadora maioria foi cometida por quem convivia ou tinha convivido com a vítima.
Quem cometeu o feminicídio, 2025
- Parceiro íntimo60,9%
- Ex-parceiro18,9%
- Familiar12,1%
Entre os feminicídios com autoria identificada, 96,4% foram cometidos por homens.
A conta que o Estado já tinha na mão
Foram 132.025 registros de descumprimento de medida protetiva de urgência em 2025, alta de 16,7% sobre 2024. Cada um deles é uma ordem judicial que já existia e não foi cumprida.
Houve ainda 4.189 vítimas de tentativa de feminicídio no ano: casos em que a mulher sobreviveu e em que a responsabilização podia ter vindo antes do próximo.
Responsabilizar, aqui, é bem concreto: descumprimento tem de gerar consequência rápida, e não virar mais um papel na pilha.
Fonte: Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, infográfico "Segurança em números 2026", dados de 2025. As proporções de autoria consideram apenas os casos com autoria identificada, e é assim que o material de origem as apresenta.
Incluir
Cor, idade e território: quem fica mais desprotegida.
Duas em cada três mulheres mortas eram negras
O risco não se distribui por igual. Quando se olha quem são as vítimas de feminicídio de 2025, aparecem cor da pele e faixa de idade, e é esse recorte que decide onde uma política precisa chegar primeiro.
Por que isso é um eixo, e não uma nota de rodapé
Mulher negra morre mais, e mulher em idade de trabalho e de criar filho morre mais. Esses dois recortes se cruzam com dependência econômica: quem não tem para onde ir com as crianças demora mais para sair, e demorar mais é o que os números acima descrevem.
Incluir é tratar essa desigualdade como parte do problema de segurança, e não como assunto de outra pasta.
Fonte: Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, infográfico "Segurança em números 2026", dados de 2025. "Negras" reúne pretas e pardas, que é a classificação usada no material de origem, seguindo o padrão do IBGE.
O interior é onde o número mais subiu
Nos três primeiros meses de 2026, São Paulo registrou 86 feminicídios, 41% a mais que no mesmo período de 2025. Quase todo o aumento veio do interior, não da capital.
86
feminicídios no estado de São Paulo
1º trimestre de 2026
41%
a mais que no mesmo trimestre de 2025
eram 61 casos no 1º tri de 2025
25h
é o intervalo médio entre uma morte e a seguinte
uma mulher a cada pouco mais de um dia
Feminicídios por macrorregião de SP, 1º trimestre
-
Interior
1º tri 202534 1º tri 202660Variação: alta de 76,5%
-
Capital
1º tri 202517 1º tri 202617Variação: estável, mesmo número dos dois anos
-
Grande São Paulo
1º tri 202510 1º tri 20269Variação: queda de um caso
Por que isso muda a estratégia
É comum tratar violência contra a mulher como problema de metrópole. Em São Paulo, no início de 2026, o aumento está no interior, onde a rede de atendimento é mais rala e a delegacia especializada mais distante.
Uma política que só cobre capital e Grande São Paulo deixa de fora justamente onde o número cresceu.
- Estupros no estado 7.255
- Desses, de vulnerável 5.550
- Proporção de vulnerável 76,5%
- Média por dia 40
Na capital, os registros se concentram em Grajaú, Capão Redondo, Jardim São Luís, Jardim Ângela, Campo Limpo e Itaim Paulista. É concentração territorial, não acaso, e é por aí que uma política focalizada começa.
Fonte: Instituto Sou da Paz, a partir de dados da Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo, 1º trimestre de 2026 e 1º semestre de 2025. O intervalo médio de 25 horas é o resultado da divisão dos 86 casos pelos 90 dias do trimestre.
Por que os números são tão altos
Três fatores aparecem em todos os recortes acima. Nenhum deles se resolve com uma lei só, e é por isso que o pacote tem quatro eixos e não uma lei única.
A violência é escalonada
- Feminicídio quase nunca começa no ato que mata.
- Ameaça, perseguição, violência psicológica, lesão corporal e descumprimento de medida protetiva vêm antes e são sinal de risco, não ocorrência menor.
Silêncio e dependência
- Criança, mulher dependente e pessoa vulnerável muitas vezes não têm como levar isso a um órgão oficial.
- Quando quem agride é da família, entram medo, culpa, pressão econômica e o risco de passar por tudo de novo em cada balcão.
A resposta é fragmentada
- Segurança, saúde, escola, Justiça e assistência social nem sempre trocam alerta entre si.
- Sem dados integrados, medida protetiva descumprida e suspeita que se repete podem não gerar resposta nenhuma.
Fonte: leitura do conjunto de dados citados acima, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do Instituto Sou da Paz. É interpretação, não estatística: está aqui identificada como tal.
Qual proposta responde a qual número
Proteção começa antes do crime grave, continua no acolhimento de quem sofreu e termina com responsabilização de quem fez. Cada bloco abaixo liga um recorte destes dados às propostas escritas.
01 · Prevenir
Agir na raiz, onde o agressor se forma, antes do crime.
02 · Proteger
Para quem já está em risco: chegar antes do pior.
03 · Responsabilizar
Para os 1.571 feminicídios do país e os 270 de São Paulo: quem agride carrega a conta.
04 · Incluir
Para a dependência econômica que impede tanta gente de procurar ajuda e de sair.
Fontes e limites deste material
De onde vem cada número
- Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, com dados de 2025. É a fonte de tudo que aparece por estado, do perfil das vítimas, de quem cometeu, da escalada de registros e do descumprimento de medida protetiva. O infográfico oficial em PDF traz os mesmos números em uma página só.
- Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo, dados e painéis oficiais.
- Instituto Sou da Paz, análise sobre os dados da SSP-SP referentes ao 1º trimestre de 2026 e ao 1º semestre de 2025.
O que estes números não provam
- Ocorrência registrada não é o total real de crimes. O número verdadeiro é maior que o publicado aqui, principalmente em violência sexual e doméstica.
- Diferença entre estados pode ser incidência real, mas também pode ser subnotificação ou qualidade de registro diferente. Comparar estado com estado exige esse cuidado.
- Este é material de apoio à formulação das propostas. As minutas publicadas estão prontas para tramitar, e nenhuma é lei: todas dependem de tramitação no Congresso Nacional.
