Eu não cheguei aqui por política
Meu nome é Guilherme Pallesi. Quase todo mundo me chama de Guipa. Escrevi propostas de lei sobre violência contra a mulher, violência contra criança e o abandono de quem cuida de alguém sozinho. Escrevi porque essas histórias chegam no meu celular todo dia, e responder mensagem uma por uma não muda a vida de ninguém no mês seguinte.
Dos 4 aos 8 anos eu morei numa casa com violência
Não era comigo. Era entre um tio e uma tia que moravam com a gente. Eu era criança e entendia pouco, mas entendia o suficiente para reconhecer o momento em que era melhor ficar quieto no quarto.
Não vou descrever cena, porque cena não ajuda ninguém e não é minha para contar. O que ficou comigo foi outra coisa: a percepção de que aquilo não começou no dia em que ficou grave. Teve semanas de aviso antes. Teve gente na casa que sabia, gente na rua que desconfiou, e nenhum lugar onde aquilo virasse alguma coisa.
Levei muitos anos para entender que essa é a parte do problema que dá para resolver com regra escrita. Não a raiva de um homem. O caminho que não existia para a mulher que morava com ele.
Toda tragédia teve aviso antes.
Comecei a falar de violência contra a mulher e a caixa de mensagens mudou
Há cerca de três anos eu comecei a falar disso nos meus vídeos. A caixa de mensagens virou outra coisa da noite para o dia. O que chegava não era comentário sobre a notícia. Era relato sobre a casa de quem estava assistindo.
Isso não parou mais. Chega relato todo dia: assédio no trabalho com a ameaça de perder o emprego junto, pensão que não é paga, imagem íntima vazada por alguém que jurou que amava, mãe que cuida de um filho com deficiência sem apoio nenhum. Muita gente escreve dizendo que nunca contou aquilo para ninguém antes.
Foi aí que a conta deixou de fechar. Eu não sou delegado, não sou psicólogo e não sou advogado, e estava recebendo, no meu celular, o que devia estar chegando num serviço público que funcionasse. Responder mensagem uma por uma é o mínimo que se faz, e não resolve o problema de ninguém no mês seguinte.
Antes disso eu passei anos com microfone na mão falando de outra coisa
Trabalhei em esporte e em entretenimento. Passei pelo Esporte Interativo e pelo Grupo Bandeirantes, trabalhei em rádio na Mix FM e em televisão na RedeTV!, e participei de A Grande Conquista, na Record. Aprendi o ofício ali: como prender atenção nos primeiros cinco segundos, como cortar o que não interessa, como falar com quem está fazendo outra coisa ao mesmo tempo.
Não tenho romance nenhum com esse período e não vou fingir que eu já era ativista. Eu era apresentador. O que essa fase me deu foi uma ferramenta, e a ferramenta é uma só: as pessoas me escutam. Isso não é mérito, é circunstância. O que se faz com isso é que é escolha.
- RedeTV!
- Rádio Mix FM
- Grupo Bandeirantes
- Esporte Interativo
- Record
Comentar dá audiência. Comentar não muda a lei
Em algum momento eu percebi que estava fazendo o mesmo vídeo pela vigésima vez. Caso novo, mesma indignação, mesma conclusão, mesmo silêncio depois. A indignação é honesta e ela não muda uma linha de nada. O que muda é texto aprovado, e texto aprovado é feito por gente que se elege para escrever texto.
Então, em vez de gravar mais um vídeo, eu sentei com quem entende de redação legislativa e escrevi. Não foi rápido. Foram quatro eixos, cada um com uma lei carro-chefe, e oito projetos de lei redigidos artigo por artigo, com ementa e justificação. Escrevi antes de estar em qualquer cédula, porque proposta prometida depois não dá para conferir e proposta escrita antes dá.
Aprendi no caminho que boa parte do que eu defendia em vídeo não sobrevive a uma análise jurídica. Ideia minha foi derrubada. Aceitei, troquei por uma que tem chance de virar lei, e publiquei o que mudou em vez de esconder. Nenhuma dessas propostas é lei. Todas dependem de tramitação no Congresso Nacional, e eu prefiro escrever isso aqui do que ser corrigido depois.
Uma coisa eu não vou fazer, e ela está no compromisso que eu assinei: responsabilizar agressores e organizações omissas sempre com decisão fundamentada e devido processo legal. Não existe atalho por linchamento. Quem já viveu isso de perto sabe que exposição pública não devolve nada para a vítima.
Biografia formal e material em alta
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