Numa palestra sobre o mês de combate à violência contra a mulher, a ativista Bruna Maria conta que muda de rua e chama o carro por aplicativo a três quadras de casa. A conversa vira o que a internet ensina aos meninos.
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Guipa: Estamos aqui, família, na zona portuária de Santos, vamos participar de uma palestra agora falando sobre o Setembro Lilás, que é o mês de combate e prevenção da violência contra a mulher. Bora lá. Estou aqui direto da Baixada Santista, com a minha parceira, minha amiga, ativista também pela causa das mulheres, Bruna Maria. Bruna, eu vou fazer algumas perguntas para você e quero saber a sua opinião, para a gente mostrar para as pessoas o quanto é importante divulgar essa questão do machismo, o quanto é importante combater e o quanto é importante falar sobre o tema, porque tem muita gente que acha que isso não existe.
Guipa: Primeira pergunta: em algum momento da sua vida você já mudou a rota de casa, mudou de rua, por conta de um homem suspeito que estava lá, com medo de ser assediada, de ser assaltada? Já aconteceu isso?
Bruna Maria: Sim, muitas vezes. Há muitos anos para cá eu tenho mudado a rota, tenho solicitado aplicativo mesmo que seja a umas três, quatro quadras de casa. Eu prefiro vir de aplicativo, ou então solicito a presença do filho, do marido, para não passar por nenhum tipo de constrangimento.
Guipa: Se você tivesse uma filha e um filho, como seria o seu ensinamento? Você ensinaria a filha a se defender, se tivesse que escolher um só, ou ensinaria o menino a não cometer atos machistas, a não ter ódio da mulher?
Bruna Maria: Eu tenho um filho e uma filha. Ensinei e ensino o meu filho a ser um homem de verdade, a respeitar a mulher e a tratar o assunto da violência com muita seriedade, porque é assim que merece ser tratado.
Guipa: É maluco o que a gente está vivendo, porque a internet hoje, que para muitos não tem que ser regulamentada, vive uma situação em que existe uma bolha, e essa bolha recebe muito conteúdo misógino, machista. Conteúdo que ensina outros homens, outros meninos da idade do seu filho, a cometer atos assim, a não entender o lado da mulher, a sentir ódio da mulher. Tem grupos piores ainda, que simplesmente querem que a mulher seja extinta da sociedade.
Guipa: Eu falei para um amigo meu outro dia, a gente estava conversando sobre essa questão do machismo, e eu perguntei: qual delas você abriria mão, do tipo, pode agredir, caso fosse necessário escolher uma? Aí ele falou: nenhuma, são mulheres, são humanas. Eu falei: então. Uma em cada quatro mulheres da nossa sociedade aqui no Brasil um dia já foi agredida. Você vê como é grave isso que a gente está vivendo. Esse combate tem que acontecer de ambos os lados, não dá para esperar que aconteça com alguém da nossa família para a gente tomar a frente.
Bruna Maria: Com certeza. E é muito importante alguém como você chamar para si essa responsabilidade, porque é uma pauta que diz respeito a toda a sociedade. Não é uma pauta só da mulher. Inclusive, se a gente parar para refletir, é uma pauta muito mais masculina, porque quem agride, quem comete feminicídio, são os homens. Então é uma pauta para mim, mulher, para você, como homem, para o adolescente, para a criança. É uma pauta para toda a sociedade. E quando a gente realmente entender e chamar a responsabilidade para a gente sobre esse tema tão importante, aí sim a gente vai conseguir ter uma sociedade muito mais saudável.