Caso real
A consulta de terça que custou o emprego
3 min de leitura Por Guilherme Pallesi
O que você vai ler não aconteceu com uma pessoa. É um enredo composto, montado a partir de muitos relatos que chegam repetindo o mesmo desenho. Não tem nome, não tem cidade, não tem idade, não tem o nome de nenhuma empresa e não tem foto. Escrevo assim de propósito, e explico o motivo no fim.
O desenho que se repete
Uma mulher trabalha de carteira assinada. Tem um filho com deficiência. A rotina do filho não é uma consulta por ano: é terapia em dia útil, em horário comercial, no serviço que aceitou atender, que quase nunca é o mais perto de casa.
Ela avisa a chefia desde o começo. Leva atestado sempre. Nos primeiros meses, ninguém diz nada. Depois alguém começa a contar. A frase que ela ouve é sempre a mesma, e nunca vem por escrito: você falta demais.
Então ela passa a marcar terapia na hora do almoço e a compensar de noite, num arranjo que não está escrito em lugar nenhum e que pode ser desfeito no dia em que a chefia mudar. Ainda assim a criança tem crise, o serviço remarca, o transporte atrasa. A vida de quem cuida não caber na agenda de quem não cuida não é falha de organização dela.
Vem a advertência. Depois a mudança de função, apresentada como um favor, porque a área nova seria mais tranquila para ela. Depois o corte. No documento da demissão não aparece uma palavra sobre o filho, porque ninguém escreve isso.
Meses depois ela continua sem carteira assinada. Na entrevista, a pergunta sobre disponibilidade de horário chega antes de qualquer pergunta sobre o que ela sabe fazer, e a resposta honesta encerra o assunto.
Onde a lei de hoje para
Quando eu conto uma história assim em vídeo, aparece sempre a mesma resposta: então ela devia processar. Talvez. Mas processo custa tempo, dinheiro e cabeça, e quem cuida de alguém 24 horas por dia não tem sobra de nenhum dos três.
E o problema é anterior ao processo. A lei de hoje trata a ausência para cuidar como exceção pontual, contada em dias por ano. Quem acompanha um tratamento contínuo vai ao serviço de saúde várias vezes por mês, durante anos. A conta não fecha, e a diferença é paga com o emprego de quem cuida.
Repare no que este texto não precisou inventar: nada do que está descrito acima exige que alguém tenha cometido um crime evidente. Foi tudo dentro do que a lei permite hoje. É por isso que o assunto é legislativo, e não moral. Não falta caráter na chefia. Falta previsão na lei.
Ninguém foi demitido por cuidar. Foi demitido por faltar. E faltou para cuidar.
Por que eu não conto o caso com nome
Porque expor não protege. Publicar o nome dela a marca no mercado de trabalho para o resto da vida, num mercado que já pergunta sobre disponibilidade antes de perguntar qualquer outra coisa. E publicar o nome da empresa transforma o texto em julgamento sem defesa, feito por mim, na internet, sem processo.
Isso não é delicadeza. É coerência com o que eu escrevi. O meu próprio pacote caminha na direção contrária da exposição pública: consulta restrita a órgão autorizado, condenação definitiva, proteção de dados. E o terceiro compromisso do pacote diz responsabilizar agressores e organizações omissas sempre com decisão fundamentada e devido processo legal. Seria incoerente o site fazer no texto o que a proposta quer evitar na lei.
Então o caso vem composto, e a proposta vem inteira. É o contrário do que costuma acontecer na internet, onde o caso vem com nome e a solução nunca vem.
